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Archive for the ‘Entrevistas’ Category

A pesquisadora Silvia Helena Barem Rabenhorst é Graduada em Ciências Biológicas (Licenciatura e Bacharelado) pelo Instituto Básico de Biologia Médica e Agrícola pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), mestrado e doutorado em Ciências Biológicas pela (UNESP) e Pós Doutorado em Genética Molecular pela Üniversity of Colorado Health Science Center”. Atualmente é Professora do Departamento de Patologia e Medicina Legal na Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordena o laboratório de Genética Molecular -Labgem. Trabalha principalmente nas áreas de marcadores moleculares, estudos de polimorfismos e de mutações associadas ao risco e resposta terapêutica, e detecção de agentes infecciosos. Nessa entrevista a professora nos conta como escolheu a profissão e o que é necessário para se tornar um pesquisador.

 

A partir de qual momento da sua vida, você decidiu ser pesquisadora?

A partir do momento que eu comecei a cursar Biologia.

 

Você sempre quis cursar biologia?

Eu tinha dúvidas em relação a isso. Eu fiz Biologia porque tem um aspecto muito amplo. Gostava tanto de agronomia como de medicina, então achei que a biologia abrangeria esses vários tipos de estudos. Sempre fui muito curiosa em querer saber os “porquês” e isso eu acho que é uma característica do pesquisador.

 

O que é ser um pesquisador para você?

Uma pessoa que é curiosa. A busca de querer entender o significado das coisas. O pesquisador basicamente é um curioso. Uma pessoa que não tem curiosidade nunca será um bom pesquisador.

 

Quais as dificuldades de se fazer ciência no Brasil?

Primeiramente nós temos dificuldades em termos de verbas para acesso às grandes tecnologias. Agora nós presenciamos uma grande mudança na área tecnológica, e os grandes grupos conseguem essas tecnologias mais facilmente do que nós, que compomos grupos pequenos. Então, montar um grupo novo, fazer a iniciação da pesquisa em locais distantes dos polos como São Paulo e Rio de Janeiro e trazer as novas tecnologias: essa é a grande dificuldade!

 

Em sua opinião, a Universidade prepara o aluno para ser pesquisador ou para ser um profissional na área?

Depende. As universidades federais e estaduais formam pesquisadores uma vez que mantem os professores em tempo integral. A partir do momento em que o professor está apto no laboratório fazendo pesquisa, em qualquer que seja a área. Se não permanece em tempo integral, o profissional não terá tempo para a pesquisa e não terá a preparação necessária para ser um pesquisador. A pesquisa está vinculada à manutenção de laboratórios de pesquisa que abram possibilidade para os alunos frequentarem e se interessarem em pesquisar, uma vez que apenas as disciplinas ministradas nos cursos de graduação pouco incentivam o aluno à prática laboratorial.

 

Qual o conselho que você daria aos alunos que se interessam em ingressar na área da pesquisa em Biologia?

É necessário muita dedicação, gostar de ler, e ser muito proativo. Eu acho que uma das qualidades mais interessantes que eu observo agora nos alunos é se são proativos. Nós temos uma dificuldade enorme. A universidade não dá suporte para praticamente nada. Nós temos que escrever projetos, passar notas, fazer importação. Se você não tem alunos que sejam seus parceiros, ou seja, que sejam proativos e ajudem nessas outras atividades (as quais um dia eles mesmos desenvolveram) não é possível realizar um bom trabalho. No momento, ser proativo é a qualidade que mais admiro.

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Emmanuel Dias-Neto, do Hospital AC Camargo.

O mineiro Emmanuel Dias-Neto tem graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1989), mestrado em Biologia Celular e Molecular pelo Fundação Oswaldo Cruz (1994) , doutorado em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1997) e pós-doutorado pelo Instituto Ludwig de Pesquisas Sobre o Câncer (1999). Atualmente é Pesquisador da Universidade de São Paulo, pelo Laboratório de Neurociências da Faculdade de Medicina, e do Centro de Pesquisas do Hospital AC Camargo. Nessa entrevista, ele nos conta um pouco da sua trajetória como cientista.

 

Qual foi a sua trajetória até chegar ao mundo da pesquisa?

Pensava em fazer biologia marinha, porque gostava muito de mar e de praia. Mas a decisão só veio na fila de inscrição para o vestibular, pois ainda pensava em outras possibilidades, como educação física. Durante a faculdade, não gostei de muitas matérias, não me identifiquei, mesmo as mais ligadas à biologia marinha, como ecologia e zoologia. Até quando eu conheci a biologia molecular e decidi que era com isso que eu queria trabalhar. Tive professores muito bons, que me estimularam e me mostraram que esse poderia ser um caminho interessante. Na minha família já havia alguns pesquisadores, como meu bisavô, meu avô, meu pai, porém mais ligados à área da medicina e de doenças tropicais. Então concluí a faculdade de biologia na UFMG e fui fazer mestrado na Fundação Oswaldo Cruz, quando comecei a trabalhar com parasitas e variabilidade genética, o que isso poderia impactar nas pessoas infectadas. No doutorado, dei continuidade e acabei descrevendo uma nova técnica de sequenciamento de genes e fui chamado para fazer um pós-doc em São Paulo, no Instituto Ludwig, com o objetivo de se essa técnica descoberta durante o doutorado era de fato boa. Os resultados foram ótimos e a técnica acabou sendo usada como técnica-base no maior projeto de pesquisa de genes humanos já realizado no Brasil, principalmente ligados ao câncer. Para mim a área científica tem um apelo muito forte, porque cada dia é diferente do outro, você está sendo sempre desafiado por questões que somente intelectualmente é possível responder.

 

Já pensou em desistir alguma vez?

Não! É muito divertido. A gente já brincou algumas vezes: eles pagam para a gente fazer o que gosta. É diferente de outras profissões convencionais, como rotinas fixas, depende do perfil e da vocação de cada um. No caso de um cientista, você tem ânsia para aproveitar ao máximo aquele dia para gerar dados novos para o dia seguinte. Além disso, a gente viaja muito, conhece muita gente interessante, e está sempre sendo desafiado. Você pode contribuir para a melhoria da vida das pessoas, o que é muito gratificante.

 

Com o que você está trabalhando hoje?

Hoje eu sou pesquisador do Hospital do Câncer (AC Camargo) em São Paulo e o meu principal objetivo lá é gerar um tipo de dado que permita levar benefícios aos pacientes. Estamos buscando, por exemplo, descobrir causas alternativas para alguns tipos de tumores, investigando o papel de bactérias, de leveduras e de fungos. Estamos também estudando alguns tipos de partículas que são produzias pelas células e que podem ser responsáveis por processos de metástase.

 

Como estimular a formação de futuros cientistas?

Estimulando a curiosidade no jovem, essa é a principal característica de um bom cientista. Ele precisa se sentir desafiado e motivado a encontrar respostas.

 

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A pesquisadora e professora Santuza Teixeira, da UFMG e do INCT de Vacinas.

A pesquisadora e professora Santuza Teixeira conta abaixo o caminho que traçou até se tornar uma cientista. Graduada e mestre em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília, cursou doutorado em Bioquímica pela Universite de Lausanne, na Suiça, e realizou pós-doutorado na Universidade de Iowa, nos EUA. Atualmente é professora associada no departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadora do Howard Hughes Medical Institute (International Research Scholar) e membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas.

 

Como foi a escolha pela ciência como profissão?

Quando fiz vestibular, não sabia exatamente o que gostaria de fazer e acabei entrando no curso de Química na Universidade de Brasília (UnB). Era um tema que me interessava, mas não muito. Porém, quando fiz minha primeira disciplina de bioquímica, estudando a célula, o DNA, as proteínas, eu me encantei pela área e mudei de curso, transferi para Biologia. Ainda na graduação – e esse é um determinando muito importante – comecei o estágio de iniciação científica no laboratório, quando comecei a trabalhar com biologia molecular e essa parte toda de sequenciamento de DNA e clonagem, temas que ainda eram poucos difundidos no Brasil naquela época. A partir daí, já muito tranqüila de que era isso que eu queria fazer na minha vida profissional, eu fiz o mestrado e segui para um doutorado no exterior, por meio de um convênio que havia entre o meu laboratório e uma universidade da Suíça. Quando terminei o doutorado e voltei para o Brasil, depois de quatro anos, para a UnB, meu orientador me entregou vários alunos para orientar, considerando-me pronta, uma pesquisadora. Mas o mais incrível disso é que a gente nunca está pronto, com todas as ferramentas para fazer de fato ciência, sempre estamos ansiosos por conhecer mais. Fiquei dois anos em Brasília e decidi fazer um pós-doutorado nos Estados Unidos, o que me deu uma outra visão de fazer ciência, com a oportunidade de comparar o trabalho na Europa e nos EUA. Fiquei novamente quatro anos fora do país, contando com financiamento americano para a minha pesquisa. Após esse período, retornei com o objetivo de ter o meu laboratório e me dedicar a minha linha de pesquisa, foi quando passei no concurso para professora da UFMG.

 

Suas pesquisas estão hoje direcionadas para qual área?

Voltei para uma área que sempre me encantou que é a biologia molecular e a parasitologia. Comecei a trabalhar com o trypanosoma cruzi ainda na iniciação científica. Fui fazer o doutorado numa área totalmente diferente, no pós-doutorado resolvi cursar num laboratório que trabalhava com um tipo de parasita e quando voltei para a universidade, pela UFMG, decidi seguir uma linha de genômica e de biologia molecular de trypanosoma cruzi, que é uma linha que não estava estabelecida no Brasil naquele momento. Havia uma parasitologia muito forte de um modo geral, mas na biologia molecular isso era muito incipiente. Um dos pontos importantes em ciência é encontrar um nicho onde você possa, por meio de pesquisas, preencher um vazio e contribuir para o desenvolvimento da área. Comecei meu laboratório há 12 anos e ao longo desse período foi necessário ter paciência, até alcançar uma estrutura adequada.

 

E qual sua rotina de trabalho?

Gosto muito do trabalho de bancada, mas com o tempo vamos nos dedicando cada vez mais assumindo outras responsabilidades. A rotina integra aulas, muitas horas de administração e algumas horas de bancada ainda.

 

Dá para viver de ciência no Brasil?

Dá para viver, dá para achar bom, dá para se divertir.  A ciência nos possibilita ainda algo que para mim é vital: viajar, conhecer outros lugares, conhecer outras pessoas, estabelecer intercâmbios, descobrir o trabalho de outras pessoas, parecido ou não com o seu. É uma escolha para a qual você tem que estar ciente que precisará se movimentar. É impossível fazer ciência fechado em seu mundo, em seu laboratório. Congressos e encontros, no Brasil e no exterior, são fundamentais para você saber o que estão pesquisando e o que se está pensando sobre os temas.

 

O que você recomenda para um jovem que pensa em seguir o caminho da ciência?

Não é preciso esperar a universidade para ingressar nesse caminho, pode ser antes, ainda no ensino médio, conhecendo o trabalho de laboratórios, lendo sobre temas que possam a vir te interessar. A maioria das pessoas, contudo, começa mesmo na universidade. Assistir as aulas é muito bom, importante, mas o aluno não pode achar que vai fazer um curso das ciências biológicas e da saúde, por exemplo, sem passar por um laboratório e uma iniciação científica. Para esse jovem ter uma formação completa, ao colocar o pé na faculdade, deve procurar conhecer os laboratórios disponíveis, mesmo que não saiba ainda com o que se quer trabalhar, é preciso conhecer primeiro, para se encontrar.

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Qual a imagem que um jovem, aluno do ensino fundamental ou médio, tem de um pesquisador? Pare para perguntar. E será que algum deles, quando chega ao momento de prestar o vestibular e decidir sobre seu futuro profissional, imagina se tornar um cientista?

Uma pesquisa realizada mundialmente mostrou que as crianças e os jovens lembram da figura de Einstein (a foto clássica do cabelo branco despenteado) quando se fala num cientista e fazem a ideia de que são sempre velhos, de jaleco branco e que vivem para descobrir coisas malucas. Quem nunca pensou nisso alguma vez?

Conhecer um pesquisador assim, de pertinho, pode revelar pessoas bem mais normais do que a figura do “cientista maluco”. São profissionais que também tiveram dúvidas sobre que carreira seguir, têm família, praticam esportes, festejam com amigos, viajam!

Mais do que isso, é importante para o desenvolvimento de uma comunidade – ou de um país – que os jovens sejam estimulados a pensar e a criar, que mantenham viva a sua curiosidade e sejam incentivados a encontrar as respostas. Ser cientista, independente da área, é uma possibilidade instigante para uma carreira profissional. Por que não?

Pedro Galante, do Instituto Ludwig

Veremos a seguir a experiência do pesquisador brasileiro Pedro Galante, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, que fica em São Paulo. Com apenas 31 anos, ele é Ph.D pela Universidade de Harvard e se dedica a investigações no campo da bioinformática.

 

Por que escolheu atuar na área de bioinformática? Como foi a sua formação?

Sou de São Pedro, uma cidade pequena, que fica há 200 km de São Paulo. Desde criança, adorava jogar futebol, mas levava a sério os meus estudos. Estudava em escola pública e sempre gostei de ciências, porém nunca imaginei que seria um cientista… No vestibular, fiquei um pouco indeciso sobre qual curso escolher e optei por Ciências da Computação, na Universidade de São Paulo (USP) . Nos primeiros meses de faculdade você descobre que não sabe nada! Achei isso o máximo, fiquei apaixonado por aprender mais e entender melhor as coisas. O que a gente aprende no ensino médio é só a ponta do iceberg, na universidade é que começamos a entender como as coisas funcionam. No decorrer do curso, fiquei impressionado com a especificidade do meu curso, que se limitava à computação e à informática. A USP oferece um sistema de vestibular interno para um curso chamado de Ciências Moleculares. Dessa forma, os alunos que já estão em algum curso da universidade e tiveram as melhores pontuações no vestibular podem optar por essa formação. Tranquei, então, Ciências da Computação, e me dediquei às Ciências Moleculares, que é um curso multidisciplinar. Nesse curso, além de matemática e computação, passei a estudar também biologia, química e física. Comecei a fazer a iniciação científica, ainda na graduação, e, depois de formado, fui para o doutorado direto, na própria USP. Na pós-graduação se aprende muito mais, é puxado, mas a gente aprende a aprender e se torna uma pessoa mais independente, pois aprende a ser pesquisador. Em seguida, fui para os EUA, onde fiz um pós-doutorado na Universidade de Harvard. Retornei para o Brasil e hoje sou pesquisador do Instituto Ludwig, em São Paulo.

 

Atualmente, com o que está trabalhando?

Hoje eu trabalho com computação aplicada à biologia. São estudos ligados ao Projeto Genoma. A gente estuda, com a ajuda dos computadores, informações vindas de organismos vivos, tanto humanos, quanto de animais e bactérias. O computador é uma ferramenta para analisar uma grande quantidade de informações. É preciso entender de biologia, não só de informática, para saber o que eu quero investigar e programar a máquina para buscar isso.

 

De onde parte a demanda para uma pesquisa?

São ideias. É a parte mais legal de ser cientista: estar sempre atento e sempre criando. Quando vamos a um congresso, a um simpósio, surgem novas ideias e quando retornamos para o nosso laboratório vamos testá-las. Às vezes não dá certo, mas às vezes dá certo, tranforma-se num projeto maior e vira a tese de um aluno, por exemplo. O mais legal de se fazer ciência é estar aprendendo e criando diariamente. Com aquele tijolinho que você aprendeu, pode construir uma muralha depois. Vamos colocando um tijolinho em cima do outro, uma ideia em cima da outra e conseguimos construir algo maior para a minha pesquisa e assim, se tudo der certo, lá na frente, encontrar a cura de uma doença ou chegar a um novo tratamento, por exemplo.

 

Quais os desafios para a bioinfomártica no pós-genoma?

O Genoma gerou muita informação e contribuiu para um grande desenvolvimento da bioinformática. O projeto gerou uma grande quantidade de informação que precisa ser processada. Junto com isso também ocorreu o desenvolvimento de uma nova tecnologia que foi o sequenciamento do DNA. O Projeto Genoma Humano foi muito importante, custou mais de 1 bilhão de dólares e levou 10 anos para ser concluído. Hoje, a gente faz o sequenciamento em duas semanas, a um custo de 30 mil dólares. A consequência disso é que se tem muita informação sendo gerada e precisa de bioinformática para trabalhar cientificamente com esses dados. Vários laboratórios perceberam que com a bioinformática se consegue facilitar muito o trabalho e com um custo baixo: a gente não tem que comprar reagente, não tem o custo de bancada e menos burocracia para importações, por exemplo. Bastam computadores, redes de informática e boas ideias. É uma área extremamente importante, se eu pudesse sugerir para quem está entrando hoje na faculdade, eu sugeriria a bioinformática. Temos já muito demanda, aqui mesmo no Brasil, e não conseguimos atender. Precisamos de pessoas que gostem de biologia e gostem de computação ao mesmo tempo, e isso nem sempre é fácil.

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Durante os dias 12 e 16 de abril, o LBMG recebeu a visita do Dr. Robert P. Fuchs (CNRS-França), que apresentou duas aulas para os alunos da UFRN sobre mecanismos de mutagênese molecular e uma palestra com o tema “The reconstitution of TLS in vitro: how closely can we mimic the situation in vivo?”.

O intercâmbio faz parte de um acordo bilateral, apoiado pelo CNPq e CNRS (França), que o LBMG mantém com o laboratório liderado pelo Dr. Fuchs. Também como parte do projeto, atualmente duas alunas de doutorado daqui estão realizando um sanduíche na França, que envolve a caracterização de genes de reparo de DNA identificados em bibliotecas de metagenoma.

O Dr. Robert P. Fuchs é um dos pioneiros na descoberta e caracterização de DNA polimerases de síntese trans-lesão, sendo hoje uma das principais referências na área de mecanismos de mutagênese e reparo de DNA, com mais de 160 artigos publicados sobre o tema. Em sua passagem por Natal, ele concedeu ao Blog LBMG a entrevista abaixo:

Professor, conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional: o que o levou a se tornar um cientista? Como foi essa escolha?

Desde garoto, junto com o meu irmão, sempre gostamos de descobrir coisas, investigar, construíamos máquinas usando eletricidade. Então, quando terminei meu curso de engenharia química, na graduação, decidi que queria trabalhar com algo relacionado às ciências da vida e busquei um laboratório que atuasse nessa área. A partir daí iniciei de fato minha vida de pesquisador.

Há alguns anos, foi feita uma pesquisa, em diversas partes do mundo, pedindo a crianças que desenhassem cientistas. O esteriótipo representado foi, em sua maioria, de um homem, com cara de maluco, descrito quase sempre como uma pessoa fria e metódica. Então, como você descreveria como é ser um cientista?

Acho que nos dias de hoje um cientista não teria um fenótipo característico, não é diferente de todo o resto da população. De fato ser metodológico é necessário a um cientista, mas ele também precisa de uma boa parcela de criatividade. Então, essas duas caraterísticas devem andar juntas num bom cientista, tanto a metodologia científica, como o potencial criativo, que seria o seu lado artístico.

Atualmente, temos muitas facilidades tecnológicas na ciência: muitos kits, robôs, as facilities. Como você vê o impacto disso na formação dos pesquisadores hoje?

Eu tenho um pouco de cautela com todo esse avanço da tecnologia nas ciências. Esse tipo de desenvolvimento traz sim facilidades, mas as pessoas acabam perdendo um pouco do entendimento do que estão fazendo, da compreensão dos processos e dos métodos científicos, pois os kits, por exemplo, já trazem o que precisa ser feito. As coisas parecem estar ficando cada vez mais mecânicas, do que exploratórias, e acabam gerando mais informações do que de fato podemos tratar. Tenho curiosidade para saber quais serão as consequências disso nos próximos anos.

Com sua experiência em trabalhos de cooperação com outros países, você poderia estabelecer uma diferenciação entre a pesquisa que é feita aqui, ainda sem tantos recursos tecnológicos, com a que é feita na Europa ou nos EUA?

Aqui no Brasil, tenho contato com o grupo do LBMG, com o grupo do Dr. Menck, da USP, e tive oportunidade de trabalhar com algumas pessoas no Rio de Janeiro. Foi uma uma grata surpresa ver como a pesquisa avança e tem grande potencial criativo em um país em desenvolvimento, já com excelentes pesquisas publicadas em revistas de forte impacto internacional. Também tenho atualmente trabalhos de cooperação com o Japão e EUA. É claro que há diferenças em relação a recursos disponíveis, mas vejo que no Brasil vocês estão fazendo muito bem o trabalho de desenvolvimento científico.

Você foi pioneiro no conceito de síntese trans-lesão, que na época foi uma grande novidade. A gente vê na literatura que às vezes uma ideia nova é dofícil de ser aceita. Você viveu isso? Como foi essa história de introduzir um novo conceito na ciência?

As vezes quando se tem algo já estabelecido, é mesmo difícil se aceitar novas ideias. Lembro que na primeira vez que falei sobre a DNA polimerase IV em uma palestra, muitos não acreditaram. Foi no coffee break desse evento que um pesquisador renomado da época me perguntou por que eu acreditava ter encontrado uma nova DNA polimerase. Eu respondi que tinha bons experimentos que comprovavam isso. O professor então me perguntou como isso era possível, se eu não era um bioquímico, e sim um engenheiro. Respondi então que eu estava trabalhando para me tornar um bioquímico. Ele me relatou que em suas pesquisas estavam tentando identificar fatores da polimerase III, que era a DNA polimerase conhecida naquela época, e estavam detectando uma atividade de DNA polimerase que jugaram ser contaminação, e não consideravam ser uma nova nova polimerase. Quando se há dogmas cristalizados, às vezes é preciso justamente uma mente jovem, sem vícios, que veja as coisas por outro prisma. No meu caso, foi um estudante de dourado que aceitou a possibilidade de uma nova polimerase, investigou e me convenceu.

E quais são seus interesses atuais?

Estou trabalhando atualmente em dois projetos. No primeiro, estamos procurando entender como na bactéria Escherichia coli o dano ao DNA é evitado, pois conhecemos muito sobre as sínteses trans-lesão e será interessante entender como os dois processos ocorrem em conjunto, já que os mecanismos que evitam os danos são livres de erros e os de síntese trans-lesão podem levar a mutações. Se a gente puder manipular o equilíbrio entre a síntese trans-lesao que produz mutações e os mecanismos para se evitar os danos ao DNA, poderemos melhorar e reduzir o nível de mutações, levando à prevenção e combate a doenças. No segundo trabalho, que ainda está em andamento, estamos buscando desenvolver novas metodologias para isolar fragmentos específicos de cromatina, para analisar a composição de proteínas e entender como mutações ocorrem em células submetidas a condições especificas.

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Seguindo a série de entrevistas com pesquisadores renomados, que compartilham conosco suas experiências, convidamos a professora Gisela de Aragão Umbuzeiro, bióloga formada pela Unicamp, mestre e doutora em Genética e Biologia Molecular pela mesma instituição. Realizou pós-doutorado no National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS) e na Environmental Protection Agency (EPA) dos Estados Unidos. Atualmente, é professora e pesquisadora da Faculdade de Tecnologia da Unicamp e credenciada na USP nos cursos de pós-graduação da Faculdade de Medicina e de Ciências Farmacêuticas. Trabalhou 22 anos na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB). Sua experiência se concentra na área de Toxicologia Ambiental, atuando principalmente nas áreas de mutagênese ambiental, ecotoxicologia, toxicologia ambiental e regulatória.

 

O que a levou a escolher a Biologia, e mais especificamente a área de Toxicologia Ambiental como especialidade?

Escolhi a Biologia quando cursava o Colégio Técnico (curso Tecnologia de Alimentos), onde me interessei pela Microbiologia. Aí, ao entrar na universidade, vi que de microbiologia o curso não tinha quase nada. Quase desisti, pois não gostava de Zoologia e Botânica, que eram o forte da área. Mas quando tive meu primeiro curso de Genética me apaixonei. Comecei então a trabalhar com melhoramento genético na era do pró-álcool. Fiz mestrado nessa área e no início do doutorado fui contratada pela CETESB para desenvolver o teste de Ames, que havia sido recém implantado (1986) e assim comecei a trabalhar com Genética Toxicológica. Em 1999, passei a orientar no programa de Toxicologia e Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e fui aprendendo toxicologia e ensinando genética e assim acabei virando uma toxicologista ambiental.

Você atuou muitos anos na CETESB e agora está na Unicamp. Quais as diferenças, ou semelhanças, entre se desenvolver pesquisa em uma organização estatal ou uma instituição de ensino?

A pesquisa aplicada sempre foi minha paixão. Lembro que, logo que me formei, tive uma discussão com um professor titular da Genética, que dizia que pesquisa aplicada não era pesquisa e isso me deixou muito enfurecida… Acho que venho tentando provar o contrário ao longo de toda minha vida. Então, a CETESB do passado fazia muita investigação dessa forma. Porém, ao longo dos anos, a empresa começou a cumprir cada vez mais o papel de agência reguladora ( licenciamento e controle) e a fazer menos pesquisa em tecnologia ambiental. Ao mudar para a Unicamp, apenas me sinto dando continuidade na minha pesquisa aplicada, porém agora com muito mais liberdade de escolha e com a chance de ensinar ao mesmo tempo, o que é fascinante.

Na sua opinião, quais os principais desafios, especialmente no Brasil, para se desenvolver estratégias e critérios ambientais que protejam a saúde humana e o ecossistema diante dos riscos das atividades econômicas não sustentáveis?

O Brasil está avançando muito em alguns setores, mas não como seria necessário na área da Toxicologia Ambiental. A maioria dos profissionais que atua na área ambiental não sabe a diferença entre risco e perigo, e isso leva a grandes confusões entre os atores envolvidos na questão. Esse foi um dos motivos que me fez migrar para a Universidade, criar um pouco mais de massa crítica na área de toxicologia, que á base para a derivação de critérios ambientais efetivos e adequados para nosso país. Além disso, tenho insistido muito que precisamos de métodos definidos para derivação dos nossos próprios critérios ambientais.

Você desenvolve estudos nas área de Genotoxidade e impacto ambiental. Na sua visão, já há uma preocupação, tanto da inciativa pública quanto da privada, em se investir em prevenção e análise dos impactos ambientais, antecipando-se a problemas com a saúde do trabalhador, das comunidades envolvidas e do próprio meio-ambiente?

As empresas maiores têm mostrado uma grande preocupação e até uma vontade de acertar, mas na minha opinião o nosso arcabouço técnico-legal ainda requer um amplo entendimento dos atores para que as discussões e soluções adequadas aconteçam. Falta conhecimento em áreas como avaliação de risco toxicológico, eficiência de tratamento, entendimento de capacidade de suporte ambiental, entre outros assuntos, para que as ideias saiam do nível de projeto nas empresas e passem a ser realidade, ou seja, se transformem em ações que efetivamente previnam danos ao ambiente.

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O pesquisador paulista Carlos Frederico Martins Menck é biólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP) em 1977, onde se doutorou em 1982 em Bioquímica. Iniciou sua carreira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atualmente é professor titular na USP. Aos 53 anos, tem experiência na área de Genética, com ênfase em Genética Molecular e de Microorganismos, atuando principalmente em temas como reparo de DNA, mutagênese, ultravioleta e transferência gênica com vetores virais. Na entrevista que confere abaixo, ele nos fala um pouco sobre sua carreira científica, a experiência com as investigações sobre o genoma e as possibilidades de popularização da Genética no Brasil.

Quais as razões que o levaram a escolher a Biologia como formação e, mais especificamente, a se dedicar aos processos de reparo de DNA?

Quando garoto, algumas informações que conheci nas disciplinas de Ciências (no antigo Ginásio) e Biologia (no antigo colegial) me chamaram muito a atenção. Entre elas, fiquei fascinado ao saber da evolução do ser humano e nossa ligação com os chimpanzés. Eu adorava discutir as questões de evolução e hereditariedade, e vibrei quando vi um simples filme sobre a molécula do DNA. Acho que a partir daí eu defini que gostaria de estudar essa molécula. Quanto ao reparo de DNA, a ideia surgiu quando, na faculdade, assisti a uma conferência da Dra. Glaucia Santeli que falava do tema, junto a envelhecimento. Contatei então o Dr. Rogério Meneghini, que trabalhava com o assunto, e creio que isso me deu a oportunidade de trabalhar com metabolismo da molécula de DNA, o que faço até hoje.

Você participou do Projeto Genoma Humano? Como foi a experiência nesse trabalho de cooperação e quais os principais resultados obtidos? O que mudou na pesquisa após o sequenciamento de todo o genoma humano?

Na verdade, tive poucas oportunidades de trabalhar com a rede brasileira de Genoma, mas conheci quase todo o pessoal, que é um ótimo time. Trabalhei de fato com os projetos genoma da rede FAPESP, e não com o projeto Genoma Humano em si. Mas de qualquer forma, confesso que foi uma boa experiência trabalhar em grupo, mesmo que reconheça como isso é difícil, pois cada pesquisador tem suas próprias ideias de como gerenciar um projeto. A característica de gerar um certo número de sequências por grupo, no entanto, propiciou o sucesso desses projetos. Infelizmente, nem todos os grupos se deliciaram ao analisar os dados propriamente ditos, ficando no trabalho técnico de sequenciamento. Nosso grupo tentou ajudar a analisar as sequencias, e isso foi recompensador. Ainda tenho alguns trabalhos deste tipo no laboratório e é muito estimulante, pois temos acesso pela internet a um verdadeiro oceano de resultados, que só precisam ser analisados com carinho e dedicação para gerar contribuição científica. Por outro lado, houve muita expectativa sobre o Genoma Humano em si, que foi um projeto importante, mas as terapias de doenças, como a AIDS e o câncer, por exemplo, só virão depois de uma análise importante dos dados e muita experimentação. Não tenho dúvidas que essas grandes terapias vão vir e serão obtidas com base nos dados do Genoma Humano.

Na sua opinião, é possível, no caso do Brasil, tornar a Genética mais acessível para a sociedade, para o cidadão comum? De que forma?

Há várias iniciativas para trazer a Genética de uma forma compreensível para o cidadão comum. Entre elas, destaco a revista Genética na Escola publicada gratuitamente no site da SBG (www.sbg.org.br). Bons livros em português também estão ajudando e vão ajudar mais ainda. O mais importante, a meu ver, é que já na escola a genética (assim como a Biologia e outras ciências) seja trabalhada a fim de despertar a curiosidade nas crianças, para que busquem respostas para as questões básicas do mundo. Como por exemplo, como surgiu a vida na Terra? Existem ET`s de fato? Por que somos tão parecidos com os macacos? A Genética está envolvida em nosso dia a dia em vários momentos, como em vários procedimentos de saúde e na produção de nossos alimentos. E não tenho dúvidas que esse espectro de uso da Genética vai aumentar muito. Afinal, a Natureza inventou estratégias fabulosas para permitir a evolução dos organismos. Temos ainda muito a aprender com ela.

Atualmente você coordena um grupo de pesquisa sobre respostas celulares a lesões no genoma. Você pode nos explicar um pouco sobre o desenvolvimento desse estudo e os principais resultados já apresentados?

De uma forma simples, estudamos como as células de nosso organismo respondem quando submetidas a agressões no genoma. Essas agressões acontecem a todos os momentos e, se não forem consertadas, causam câncer e envelhecimento. Nós estudamos esses processos em seres humanos e em outros organismos (incluindo bactérias e plantas). Fomos dos primeiros grupos no mundo a mostrar que nosso sistema de reparo de DNA é similar ao de plantas, em clara demonstração do processo evolutivo. Conseguimos também estar entre os primeiros a entender como uma espécie ativada de oxigênio (o oxigênio singlete) pode lesar o DNA. Em células humanas, conseguimos os primeiros dados para corrigir defeitos genéticos em termos de reparo de DNA. Atualmente, entre vários projetos, um deles busca uma forma de tornar inativos os processos de reparo de DNA em células tumorais para desenvolvimento de terapias mais eficazes contra o câncer.

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